Holanda

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Amsterdam

Nada convencional: o estilo de vida de quem vive em casas-barco

"Agora mesmo temos um ninho de patos ali naquela árvore", Rianne Blaakmeer aponta enquanto conversávamos no deck do seu barco à beira do rio Amstel, numa tarde de primavera tão ensolarada que evidenciava ainda mais o entusiasmo no sorriso de quem aprecia tanto o seu estilo de vida. E continua: "De vez em quando também aparece um ganso; ele formou seu ninho aqui ao lado e logo depois já estava nadando com seus bebês-ganso. Isso é único ver de perto! Além de ser um dos motivos que nos fez decidir morar neste local e desfrutar do contato com a natureza e com a liberdade".

A sensação de liberdade que essa simpática holandesa co-fundadora da Editora Uitgeverij Pluim tanto almejava seria contemplada quando ela e seu marido pudessem olhar dia e noite para um horizonte longe, e "não somente para o balcão do vizinho", como ela mesma descreve. Foi necessária muita determinação para lidar com expectativas, frustrações e com a glória de ver seu próprio barco reformado depois de 06 meses (incendiado durante a obra), percorrendo uma distância de 150km de Leeuwarden, ao Norte da Holanda, até chegar ao seu ponto de parada, em Amsterdam. Assim como Rianne, muitos compradores viajam para outras regiões em busca de boas ofertas, até mesmo cruzando a fronteira com a Alemanha para conferir pessoalmente opções anunciadas em sites imobiliários. Por outro lado, apenas comprar o barco em nada adianta: cada proprietário precisa adquirir um "pedacinho de terra-água" para garantir seu endereço fixo.

Permissão para morar

Atualmente existem 2.500 casas-barco registradas em Amsterdam, número bastante considerável para a rede fluvial da cidade (em torno de 100 kilômetros). Comprar um barco, não significa, por sua vez, que você poderá usá-lo como moradia. É necessário conseguir uma permissão e pagar por ela, chamada ligplaats. "Não é qualquer um que ousa encarar a compra de uma casa-barco e conseguir a permissão que é demorada, arriscada, estressante e pode ser que nem dê certo. Requer coragem e saber lidar", conta Rianne que ao lado de seu marido enfrentou um processo intenso de espera e reforma - sem contar o investimento de aproximadamente 300 mil Euros - até poder usufruir de uma casa tão linda quanto nova, reconstruída em uma estrutura com mais de um século: casas-barco com mais de 100 anos de idade são bem comuns, por sinal.

Para alguns, esta é a beleza de morar em uma delas, tal qual é para Jasper Helmer, um dos proprietários do Noorderlicht Café (autêntico espaço cultural e gastronômico), que mantém uma relação profunda e conectada com seu barco, onde mora há 10 anos. "Pode até soar estranho, mas quando eu penso no meu barco é como se ele fosse um amigo; eu realmente o amo neste sentido e sou muito grato por ter se tornado parte da minha vida. Ele é uma entidade pra mim". Pelo menos até setembro deste ano (2020) Jasper sentirá falta de seu companheiro, temporariamente alugado para uma médica que atua na linha de frente do Covid-19, enquanto ele acampa com sua família e preserva sua conexão com a natureza - uma das bases para um estilo de vida consciente e saudável.

Jasper não é o único a personificar seu barco e a exaltar a importância de sua história, já que a maioria das casas-barco de Amsterdam somam décadas de vida - antigamente navios de carga eram o principal meio para o transporte de bens e mercadorias e este mesmo navio que servia como transporte e trabalho, para determinada família, se tornava, depois, o seu canto para morar - e não havia nada de glamuroso, pois tudo era muito simples e rústico, até mesmo para conseguir eletricidade e água quente.

Laços estreitos

Só depois de conversar com alguns donos de casas-barco compreendi que a função primordial que tantos de nós procuram, ao alugar ou comprar uma casa - ou apartamento -, em nada tem a ver com o propósito de quem escolhe, hoje em dia, dedicar sua vida e conviver inteiramente em um ambiente não convencional. "Às vezes eu a odeio, mas também a amo carinhosamente. Ela é parte da família; eu diria que ela é uma senhorinha mal-humorada que decide se nós podemos morar com ela, apenas se nos comportarmos bem!", define sua relação com o barco (no artigo feminino), de forma hilária e perspicaz, a Diretora de Comunicação do De Balie "Espaço para as Artes", Saskia Legein. Foi mais ou menos com essa frase que começamos nossa agradável conversa em seu barco - que também já completou seu centenário -, onde mora com o marido e o filho de 10 anos, numa localização privilegiada de tão Central, ainda sim num canal extremamente silencioso. "Você se casa com seu barco. É um casamento e significa intenso trabalho; por isso, cultive-o positivamente", complementa, sabiamente.

Ninguém escolhe morar em um barco por acaso. Não se trata de uma alternativa a outros tipos de moradia. Não. Você precisa realmente querer casar com seu barco. Logicamente muitos o enxergam como uma opção mais atraente quando se leva em consideração a dificuldade de encontrar um imóvel bem localizado e conservado - ou novo - em áreas centrais de Amsterdam. O que pode, por sua vez, não ser tão acessível em casos de locação. Cavan Sheahan, agente imobiliário à frente da carteira de expatriados na HousingNet, me explica que o aluguel mensal de barcos pode custar 25% a mais que uma propriedade comum (€23.50 a €25 m2, enquanto casas-barco chegam a €30 m2). "Logicamente isso depende de localização, condições do barco e o que ele tem pra oferecer", observa Cavan.

Não é pra todos

"Se você quer morar em um barco, isso já diz alguma coisa sobre você", afirma Jasper, ao se referir a um perfil bem peculiar de ser, cujos interesses e pensamentos fluem, segundo ele, fora da chamada "massa" da população. "Se você não gostar de viver em um barco, bastam alguns meses para largar. No inverno, é mais frio; no verão, é mais quente; se chove, é mais úmido; se há uma tempestade, o barco balança. Não é tão confortável". Ouvi algo semelhante do jovem ator Tarik Moree, com apenas 23 anos já dono do seu próprio barco: "O inverno foi um período de teste pra mim. Se eu sobrevivesse durante o inverno e ainda gostasse deste barco, então estaria apto para continuar morando aqui". Tarik confessa que velejar está em seu sangue desde criança - influência familiar -, mas sendo tão sociável e "viciado em pessoas e contatos sociais", como ele mesmo se enxerga, precisou de foco para ultrapassar os percalços - e a sensação de solidão - do intenso inverno holandês. Com o sucesso atingido em seu próprio desafio, Tarik vive há 01 ano de forma modesta sobre a água: quando digo modesta significa que lavar roupa e tomar banho são feitos fora de casa, ou seja, no escritório da marina. "Mas eu tenho um toilet que já é ótimo. Tudo que preciso está aqui, é pequeno, mas o suficiente para uma pessoa".

Se uma casa sobre a terra já demanda cuidado e reparos, imagine num barco que naturalmente sofre desgastes dada à sua posição geográfica. Por manutenção se entende levá-lo a cada 05 anos para um estaleiro onde removem todo o excedente de água que acumula ao longo dos anos - paga-se caro por isso também; checar centímetro por centímetro para garantir que não haja ferrugens e partes ocas corroídas pela água; sem contar possíveis vazamentos, refação de pinturas e por aí vai. Isso se torna, na verdade, o menor dos problemas para uns, enquanto para outros, o fato de criar filhos dentro de um barco pode soar perigoso e imprudente. Rianne Blaakmeer confessou que foi bastante criticada por isso; mas não se abalou com as críticas e exalta, satisfeita: "Em alguns anos meu filho terá sua própria piscina particular. Fantástico, não?".

Há também quem aponte o fato de envelhecer causar desconforto com escadas estreitas e obstáculos escorregadios. Todos me garantem, mesmo com essas particularidades, que as vantagens são maiores ao comparar com uma casa sobre a terra. "A melhor parte disso tudo é quando retorno pra casa, dou uma boa olhada nas águas deste canal e sinto como se estivesse em constante férias", afirma Saskia ao admirar seu entorno enquanto não pestaneja em afirmar que qualquer árduo trabalho de manutenção é recompensado. Tendo a concordar com ela. Quem sabe, futuramente, não provarei também desse excêntrico e curioso estilo de vida.

Comentários

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  • AOC
    Adorei! Sempre quis saber como funcioname! 😉
  • Leandro Camargo Neves
    Interessante e leve.
    Sinto uma mudança no foco do seu trabalho.
  • Marcos Bin
    Boa noite querida amiga Malu. Tudo bem com você? Pati me passou esse link para eu ver e disse... é a sua cara. Ao abrir me deparei que o tema era sobre casas barco. Eu já havia lido e visto reportagens sobre a vida a bordo em Amsterdam. O que isso tem a ver comigo? Apenas a vontade de ter um veleiro e morar nele em nosso litoral brasileiro. Pois há mais ou menos 5 anos, tenho assistido e seguido um programa no you tube que chama # Sal. Esse programa conta e mostra a vida real de um casal que resolve largar tudo e viver a bordo de seu veleiro. Já se passarm 5 anos que o canal foi inventado e a cada dia só cresce o número de pessoas em busca de viver uma vida mais tranquila e diferente, totalmente livre da rotina de uma vida em terra. Como sou sonhador e aventureiro, penso que essa idéia possa ser uma realidade. E como disse nosso amigo Marcelo em nosso último encontro na casa do Paulo dizendo, "que se um dia ele ficasse perdido em algum lugar,, gostaria de estar comigo. Pois estaríamos salvos kkkk.." Enfim, claro que um barco tem seus custos e dificuldades para mantê-lo e viver a bordo do mesmo. Mas acredito que só tende a crescer o número de pessoas querendo um estilo de vida como este. Se deixar vou escrever por horas aqui o que acho desse estilo de vida. Mas preciso voltar a minha realidade. Kkk. Vou ficando por aqui. Um forte abraço pra vc e para Juninho. Com carinho. Marcos
  • Fabíola
    Parece ser uma experiência incrível. Muito legal os depoimentos dos moradores; deu vontade de conhecer!
  • Patrícia
    Adorei a matéria!! Deu vontade de passar um tempo numa casa barco!! Muito interessante
    😘