Brasil

Amor, dor, intensidade e contrastes: a minha São Paulo é assim

Escrever sobre São Paulo, onde morei metade da minha vida, exige que eu resgate sentimentos muito profundos e esquecidos. Aqueles que me fizeram desejar tanto morar lá, viver por tanto tempo, construir carreira e fazer amigos que se tornaram família. Sentimentos cuja mesma intensidade me deparei também querendo ir embora. Não conheço ninguém que goste "mais ou menos" dessa cidade (a menos que tenha nascido lá e guarde um sentimento afetivo, por conta do passado, São Paulo geralmente desperta uma sensação de amor ou repulsa, ao mesmo tempo - ou separadamente -, e nos faz viver tudo de forma intensa, como se fosse a última vez de nossas vidas).

Se há tanto tempo dizem que o trabalho enobrece o homem, vá até São Paulo para entender como as pessoas levam esse ditado ao pé da letra. Trabalho é uma das palavras mais vividas, literalmente. Talvez por isso ninguém busque São Paulo pela sua beleza. Tampouco direi que São Paulo é uma cidade bonita, porque não acho que seja: prédios que escondem o horizonte - ou horizonte de prédios; muros e construções vandalizados de pixe por toda parte; fios que percorrem aos nossos olhos à medida com que somos perturbados pelos excesso de barulho no trânsito; falta de parques e áreas verdes por metro quadrado; mais e mais moradores de rua em situações sub-humanas.

Descrevo, aqui, um cenário caótico que bem explica a estética da cidade paulistana. Mas acabamos acostumando ao feio e ao caos, porque somos afagados pelas relações humanas que essa cidade nos permite absorver (e, convenhamos, pelos ganhos financeiros que lá também podemos alcançar). São essas mesmas relações humanas, alías, que me fizeram conhecer pessoas tão maravilhosas e interessantes quanto solícitas, quando cheguei com 18 anos em busca de grandes aspirações, profissionalmente falando. Nesse contexto encontrei tanto nessas pessoas, quanto nas oportunidades e novidades, o combustível necessário para crescer, ter sucesso, "vencer" (como dizem), assim como tantos outros milhões de paulistanos, nordestinos, caipiras e estrangeiros o fazem todo santo dia.

Somos iguais ao desejar estar em São Paulo e todos temos em comum uma qualidade que a cidade exige, independente do grau de escolaridade, sexo, condição social e cultura: poder de adaptação. São Paulo não é para os fracos.

Já do ponto de vista turístico, pode ser uma caixa cheia de boas surpresas: restaurantes e chefs de cozinha magníficos; culinária internacional e brasileira de se esbaldar; hotéis lindos e deliciosos de ficar; arquiteturas belas de admirar - principalmente em bairros mais centrais, na minha opinião; bares e vida noturna pra todos os piques; tantos museus e galerias; festivais e, jamais poderia esquecer, do maior e melhor Carnaval de rua do Brasil, atualmente: este sim é um feriado que vale muitíssimo a pena para quem gosta de festa, suor, música, cor. Depois de aproveitar tudo isso, principalmente com boas companhias, pode ser que você sinta que está na hora de ir embora... São Paulo nos enche de energia mas também a consome com a mesma facilidade com a qual nos dá a motivação certa para lá, um dia, ter estado, por pouco ou muito tempo.